
Rolf Hartmann, presidente da Cruz Azul no Brasil
28 de junho de 2026.
Em tempos em que o esporte se tornou uma das maiores vitrines comerciais do mundo, alguns atletas têm dado um exemplo que vai além das quatro linhas. Ao recusarem associar sua imagem a bebidas alcoólicas, jogos de azar e apostas, eles estão transmitindo uma mensagem simples, corajosa e necessária: nem tudo deve ser vendido como se fosse normal.
Entre esses nomes, Kylian Mbappé merece destaque. Sua postura de preservar sua imagem de associações comerciais com álcool, apostas e outros produtos nocivos é mais do que uma decisão pessoal. É um gesto público de responsabilidade. É também uma mensagem poderosa para milhões de crianças, adolescentes e jovens que acompanham o futebol e veem nos grandes jogadores modelos de comportamento.
Muitos atletas recusam a associação com bebidas alcoólicas por convicções pessoais, como o jogador Ousmane Dembélé, da seleção da França, eleito melhor jogador do mundo no último ano, que recebeu o troféu por ter marcado três gols nesta copa. Além de Dembélé, a estrela turca Arda Güler, o egípcio Mo Salah e a dupla marroquina Achraf Hakimi e Ismael Saibari também seguiram a mesma postura nesta copa. Esperamos que estas posturas possam motivar outros jogadores a também se posicionarem.


Jogador Dembélé com troféu Jogador Méssi com troféu
(sem a marca da cervejaria ao fundo) (com a marca da cervejaria ao fundo)
Isso deve ser respeitado. Mas o ponto principal é ainda mais amplo: essa escolha está correta do ponto de vista da saúde pública, da prevenção e da proteção da juventude.
O álcool não é um produto comum. É uma substância psicoativa, capaz de causar dependência, acidentes, violência, adoecimento familiar e perdas sociais profundas. Além disso, a Organização Mundial da Saúde tem alertado que não há nível seguro de consumo de álcool para a saúde, especialmente quando se considera o risco de câncer. Portanto, associar álcool à vitória, ao talento, à alegria e à imagem de ídolos esportivos não é neutro. É uma forma poderosa de normalização.
O mesmo vale para jogos de azar e apostas. A expansão das apostas esportivas tem aproximado crianças e adolescentes de uma cultura de risco, ilusão de ganho fácil e sofrimento financeiro e emocional. Quando o uniforme, o estádio, a transmissão e os prêmios individuais são cercados por marcas de apostas, o esporte deixa de ser apenas esporte e passa a funcionar como vitrine de comportamentos potencialmente danosos.
Por isso, atletas que recusam esse tipo de associação merecem aplauso. Eles não estão apenas protegendo sua própria imagem. Estão ajudando a proteger o sentido educativo do esporte. Estão lembrando que futebol é saúde, disciplina, superação, talento, convivência e esperança — não propaganda de produtos que podem destruir vidas.
Os países do mundo assumiram, na Agenda 2030, o compromisso de promover saúde e bem-estar. Mas esse compromisso precisa sair dos discursos e aparecer nas decisões concretas. Não é coerente defender vida saudável e, ao mesmo tempo, transformar bebidas alcoólicas e apostas em símbolos de celebração esportiva diante de uma audiência global formada também por crianças e adolescentes.
A atitude desses jogadores aponta um caminho melhor. O esporte pode ser financiado, divulgado e celebrado sem precisar associar seus maiores talentos a substâncias e comportamentos que causam dependência, sofrimento e morte evitável.
Reconhecer essa postura é valorizar uma escolha responsável. É afirmar que os verdadeiros campeões não inspiram apenas pelo que fazem com a bola nos pés, mas também pelo que decidem não promover com o próprio nome.
Fontes que fundamentam esta reflexão
A FIFA confirma a AB InBev como patrocinadora oficial de cerveja da Copa do Mundo FIFA 2026, e páginas oficiais da entidade usam a denominação “Michelob ULTRA Superior Player of the Match” para a premiação de melhor jogador da partida.
A Organização Mundial da Saúde afirma que restrições abrangentes à publicidade, promoção e patrocínio de bebidas alcoólicas são medidas efetivas e custo-efetivas, especialmente para proteger crianças, adolescentes e pessoas abstinentes.
A OMS Europa declara que as evidências disponíveis não permitem identificar um nível seguro de consumo de álcool para a saúde, especialmente em relação aos efeitos cancerígenos.
A OMS reconhece que o jogo de azar pode ameaçar a saúde, gerar sofrimento mental, prejuízos financeiros e danos sociais.
A Agenda 2030, no Objetivo de Desenvolvimento Sustentável nº 3, estabelece o compromisso de assegurar vida saudável e promover o bem-estar para todos, em todas as idades.
Fonte: Jornal/Portal BILD (https://www.bild.de/sport/fussball/wm-2026), 27/06/2026.



