
O aumento de 105,8% no CadÚnico recoloca em pauta o papel do álcool e outras drogas, ao lado da pobreza, dos conflitos familiares e da falta de moradia.
Em pouco mais de três anos e meio, o total de registros passou de 191.896 (dezembro de 2022) para 394.863 (julho de 2026). São 202.967 pessoas a mais identificadas nessa condição — crescimento de 105,8%.[1–2]
De 2012 a 2022, os registros aumentaram 179.121. Desde dezembro de 2022, o acréscimo foi de 202.967 até julho de 2026, em menos de quatro anos. A comparação evidencia a dimensão recente, mas o CadÚnico é um registro administrativo: variações também refletem cobertura e atualização cadastral.[1–2,5]
A dimensão do crescimento

Gráfico 1 — Evolução dos registros desde 2012, com destaque para o aumento de 105,8% entre dez./2022 e jul./2026. Fontes: CNJ e UFMG.[1–2,5]
Tabela 1 — Registros nacionais no CadÚnico, 2012 a julho de 2026 (leitura cronológica: coluna esquerda, depois direita). 2012–2019: CNJ; 2020–2026: UFMG. (*) Dado parcial. Extrações publicadas em datas distintas podem apresentar pequenas diferenças.[1–2,5]
| Ano | Registros | Ano | Registros |
| 2012 | 12.775 | 2020 | 194.824 |
| 2013 | 22.922 | 2021 | 158.191 |
| 2014 | 37.419 | 2022 | 191.896 |
| 2015 | 52.440 | 2023 | 261.653 |
| 2016 | 73.874 | 2024 | 327.925 |
| 2017 | 101.302 | 2025 | 365.822 |
| 2018 | 138.332 | Julho/2026* | 394.863 |
| 2019 | 174.766 |
Álcool e outras drogas: um fator relevante, não uma explicação única
No CadÚnico analisado pelo Ipea (agosto de 2023), 30,4% apontaram uso abusivo de álcool e/ou outras drogas entre os motivos para estar nas ruas. Foram citados também conflitos familiares (47,3%), desemprego (40,5%) e perda de moradia (26,1%). As respostas eram múltiplas e não representam diagnósticos de dependência.[3]

Gráfico 2 — Motivos declarados para a situação de rua no CadÚnico (agosto de 2023). Respostas múltiplas. Fonte: Ipea. [3]
O elo com as comunidades terapêuticas
Na pesquisa UFF/DEPAD com 1.223 acolhidos de 127 comunidades terapêuticas, 24,2% estavam em situação de rua antes do acolhimento (25,1% incluindo aqueles que estavam em abrigos). As CTs, portanto, também recebem pessoas com intensa vulnerabilidade habitacional.[4]
Entre todos os acolhidos entrevistados, 73,7% relataram uso de álcool, 61,3% de cocaína e 47,1% de crack. Esses percentuais não se referem especificamente àqueles que vieram das ruas, pois a pesquisa não apresenta esse cruzamento.[4]
Uma resposta que precisa ser integrada
As séries mostram aumento de registros, não suas causas. O Ipea identifica álcool e/ou outras drogas entre os motivos declarados para estar na rua; o DEPAD confirma que as CTs acolhem também pessoas oriundas das ruas. Respostas eficazes precisam atender essas necessidades sem ignorar pobreza, desemprego, conflitos familiares e falta de moradia.
Isso exige integrar assistência social, atenção básica, CAPS AD, tratamento especializado, acolhimento voluntário em CTs quando indicado e programas de moradia e reinserção social. A meta ODS 3.5 reforça a prevenção e o tratamento de problemas associados ao álcool e outras drogas.
O ponto central: os registros mais que dobraram desde 2022. Enfrentar essa expansão exige reconhecer todas as suas dimensões — inclusive a do álcool e outras drogas — e medir resultados que vão além do simples cadastramento.
Fontes (links): [1] UFMG/2025 · [2] UFMG/2026 · [3] Ipea · [4] UFF/DEPAD · [5] CNJ/Série histórica 2012–2022
Autor: Rolf Hartmann, Presidente da Cruz Azul no Brasil. 21 de outubro de 2026.


