
Muitas pessoas acreditam que uma taça de vinho ou uma dose de bebida alcoólica à noite pode ajudar a relaxar e dormir melhor. De fato, a ingestão de álcool antes de dormir pode induzir um sono mais rápido, especialmente em pessoas ansiosas ou em contextos de estresse. Contudo, a ciência é clara: o álcool compromete significativamente a qualidade do sono e acarreta efeitos adversos à saúde física e mental.
Álcool e o ciclo do sono
O sono é um processo fisiológico complexo, dividido em estágios (N1, N2, N3 e REM), todos fundamentais para a recuperação do organismo e do cérebro. Estudos demonstram que o álcool altera esse ciclo natural, especialmente na segunda metade da noite. A substância reduz o tempo de sono REM — fase essencial para a consolidação da memória e regulação emocional — e aumenta a fragmentação do sono, levando a despertares frequentes e sono não reparador¹.
Além disso, com o passar do tempo e o uso frequente, o efeito sedativo do álcool diminui devido à tolerância neuroquímica, levando a um consumo maior para obter o mesmo efeito inicial, o que é um fator de risco para dependência².
Consequências fisiológicas e comportamentais
O uso do álcool como indutor de sono está associado a um aumento da sonolência diurna, fadiga, déficit de atenção e irritabilidade. A médio e longo prazo, pode contribuir para o agravamento de quadros de depressão, ansiedade e transtornos do sono, como insônia crônica e apneia do sono³.
Uma falsa solução com alto custo
É importante destacar que o uso do álcool como “medicação” para dormir mascara problemas subjacentes de saúde mental e distúrbios do sono. Abordagens terapêuticas não farmacológicas, como a higiene do sono e a terapia cognitivo-comportamental para insônia (TCC-I), são comprovadamente mais eficazes e seguras.
A utilização do álcool como ferramenta para dormir é incompatível com as diretrizes da Política Nacional sobre o Álcool, instituída pelo Decreto nº 6.117/2007, que reconhece o papel da bebida alcoólica como fator agravante em diversos problemas de saúde pública⁴. A estratégia nacional orienta-se pelo princípio da precaução, da responsabilidade e da prevenção do uso indevido de substâncias psicoativas, especialmente entre jovens.
Conclusão
A Cruz Azul no Brasil, fiel ao seu compromisso com a promoção da saúde integral e a prevenção da dependência, reafirma que não há benefício legítimo e sustentado no consumo de álcool antes de dormir. O preço que se paga por uma aparente indução ao sono é a deterioração silenciosa da saúde física, emocional e social.
Autor: Rolf Hartmann – Presidente da Cruz Azul no Brasil
Referências
- Ebrahim, I.O., et al. “Alcohol and Sleep I: Effects on Normal Sleep.” Alcoholism: Clinical and Experimental Research, vol. 37, no. 4, 2013, pp. 539–549. https://doi.org/10.1111/acer.12006
- Roehrs, T., and Roth, T. “Sleep, Sleepiness, and Alcohol Use.” Alcohol Research & Health, vol. 25, no. 2, 2001, pp. 101–109. NIH/NIAAA
- Brower, K.J. “Alcohol’s Effects on Sleep in Alcoholics.” Alcohol Research & Health, vol. 25, no. 2, 2001, pp. 110–125. NIH/NIAAA
- BRASIL. Decreto nº 6.117, de 22 de maio de 2007. Institui a Política Nacional sobre o Álcool. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2007/decreto/d6117.htm



