
RESUMO
O suicídio é uma das principais causas de mortalidade em nível global, frequentemente associado a transtornos mentais, como a dependência de substâncias psicoativas e a ludopatia. Pesquisas indicam que indivíduos afetados por essas condições apresentam risco significativamente maior de ideação e comportamento suicida em comparação à população geral. Este estudo realiza uma análise integrativa da literatura científica sobre a relação entre o consumo de substâncias psicoativas, o transtorno do jogo patológico e o suicídio, destacando fatores neurobiológicos, psicológicos e sociais que aumentam a vulnerabilidade a esse desfecho trágico. A pesquisa evidencia a necessidade de intervenções de saúde pública que integrem o tratamento dessas comorbidades para reduzir os índices de suicídio.
Palavras-chave: Suicídio; Substâncias Psicoativas; Ludopatia; Comorbidades; Saúde Mental.
1. INTRODUÇÃO
O suicídio representa um grave problema de saúde pública, sendo responsável por mais de 700 mil mortes anuais, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS, 2021). Diversos fatores de risco estão associados ao comportamento suicida, incluindo transtornos mentais, consumo de substâncias psicoativas e comportamentos compulsivos, como o jogo patológico, também conhecido como ludopatia. O uso abusivo de substâncias psicoativas está associado a um risco de suicídio até 10 vezes maior do que na população geral (CAVALCANTI et al., 2020). De forma semelhante, a ludopatia, reconhecida como um transtorno mental pela OMS desde 1992 (CID-10, F63.0), aumenta o risco de suicídio em até 20 vezes (LASSERRE, 2022).
Quando essas duas condições estão presentes simultaneamente, o risco de suicídio pode ser exponencialmente amplificado. Além dos indivíduos diretamente afetados, os familiares de dependentes químicos e jogadores patológicos também enfrentam um risco elevado de desenvolver transtornos psiquiátricos, como depressão e ansiedade, aumentando sua vulnerabilidade ao suicídio (RODRIGUES; ALMEIDA; CARDOSO, 2019). Assim, torna-se fundamental entender essa inter-relação para a elaboração de políticas de prevenção e intervenção.
2. METODOLOGIA
Realizou-se uma revisão integrativa de literatura a partir de bases de dados como PubMed, Scielo e Google Scholar. Os critérios de inclusão consideraram artigos publicados entre 2015 e 2024, que investigassem a correlação entre o uso de substâncias psicoativas, a ludopatia e o suicídio. Foram selecionados 40 artigos, sendo 25 considerados mais relevantes após avaliação do conteúdo.
Além disso, dados estatísticos sobre o risco de suicídio em usuários de substâncias e jogadores patológicos foram analisados com base em estudos epidemiológicos e documentos oficiais, como relatórios da Organização Mundial da Saúde (OMS) e publicações do Ministério da Saúde do Brasil.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
3.1. Fatores neurobiológicos comuns
Tanto a ludopatia quanto o uso abusivo de substâncias afetam sistemas neurológicos similares, principalmente o sistema de recompensa dopaminérgico (KOOB; VOLKOW, 2016). A ativação constante desse sistema leva a um aumento da impulsividade e da busca por recompensas imediatas, fatores associados ao risco de suicídio (MANN, 2003).
Além disso, a redução da serotonina em indivíduos com dependência química e jogo patológico pode contribuir para o aumento da impulsividade e da agressividade, que são características comuns em comportamentos suicidas (CHEN et al., 2020).
3.2. Aspectos psicológicos e sociais
Estudos indicam que indivíduos com transtornos por uso de substâncias e jogadores patológicos apresentam uma maior prevalência de sintomas depressivos e transtornos de ansiedade (ESPOSITO-SMYTH et al., 2017). Além disso, o impacto financeiro e os danos às relações interpessoais frequentemente levam a sentimentos de isolamento, desesperança e baixa autoestima (HASSANIAN-MOGHADDAM et al., 2019).
3.3. Dados quantitativos de risco de suicídio
Estudos indicam que o risco relativo de suicídio é substancialmente elevado em usuários de substâncias e jogadores patológicos:
Risco de suicídio em usuários de substâncias e jogadores patológicos

Figura 1 – Risco relativo de suicídio em usuários de substâncias e jogadores patológicos.
Risco de suicídio em familiares de usuários de substâncias e jogadores patológicos
Além disso, familiares desses indivíduos apresentam um risco aumentado de desenvolver transtornos mentais e ideação suicida:

Figura 2 – Risco relativo de suicídio em familiares de usuários de substâncias e jogadores patológicos.
3.4. Efeitos no núcleo familiar
O sofrimento emocional dos familiares de indivíduos com dependência química ou ludopatia pode desencadear sintomas de depressão e ansiedade (SOUZA; FONSECA; MOURA, 2018). A exposição constante a situações de violência, dificuldades financeiras e estresse crônico aumenta consideravelmente o risco de ideação e tentativa de suicídio nesses indivíduos (RODRIGUES; ALMEIDA; CARDOSO, 2019).
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O risco de suicídio entre indivíduos com transtornos por uso de substâncias e ludopatia é consideravelmente elevado. A interseção desses fatores pode potencializar os riscos, exigindo uma abordagem integrada de saúde mental e políticas públicas específicas.
A prevenção deve focar não apenas nos indivíduos afetados diretamente, mas também em seus familiares, oferecendo suporte psicológico, tratamento especializado e assistência social. A compreensão dos riscos associados a essas comorbidades é essencial para a formulação de estratégias eficazes de prevenção ao suicídio.
Autor: Rolf Hartmann
Presidente da Cruz Azul no Brasil[1]
[1] Cruz Azul no Brasil. Organização voltada à prevenção, recuperação e assistência no combate ao uso abusivo de substâncias psicoativas e promoção da saúde integral.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de prevenção ao suicídio. Brasília: Ministério da Saúde, 2021.
CAVALCANTI, A. L.; SOUSA, D. C.; SILVA, T. J. Transtornos por uso de substâncias e risco de suicídio: uma revisão sistemática. Revista Brasileira de Psiquiatria, v. 42, n. 3, p. 251-258, 2020.
CHEN, L. Y.; CRUM, R. M.; HAN, B. Suicidal ideation and associated factors among adults with major depressive disorder and substance use disorders. Journal of Affective Disorders, v. 272, p. 298-304, 2020.
ESPOSITO-SMYTH, E.; GORDON, M. S.; SIMON, R. I. Substance abuse and suicide risk among individuals with comorbid disorders. Journal of Dual Diagnosis, v. 13, n. 2, p. 130-137, 2017.
HASSANIAN-MOGHADDAM, H.; NIKFARJAM, A.; KHOSRAVIFAR, F. Substance use and suicide: A review. Iranian Journal of Psychiatry, v. 14, n. 4, p. 288-295, 2019.
KOOB, G. F.; VOLKOW, N. D. Neurobiology of addiction: a neurocircuitry analysis. The Lancet Psychiatry, v. 3, n. 8, p. 760-773, 2016.
LASSERRE, R. Principais riscos do PL 2234/2022: Aspectos sociais e econômicos da legalização dos jogos de azar. 2022.
MANN, J. J. Neurobiology of suicidal behaviour. Nature Reviews Neuroscience, v. 4, p. 819-828, 2003.
RODRIGUES, C. F.; ALMEIDA, R. J.; CARDOSO, L. M. O impacto do abuso de substâncias sobre os familiares e o risco de suicídio. Revista de Saúde Pública, v. 53, p. 89, 2019.
SOUZA, R. L.; FONSECA, P. B.; MOURA, M. A. Impactos psicológicos do uso de substâncias psicoativas em familiares. Revista de Saúde Mental e Sociedade, v. 10, n. 1, p. 67-76, 2018.