
RESUMO
O jogo patológico, também conhecido como ludopatia, é um transtorno reconhecido internacionalmente e frequentemente associado a comorbidades psiquiátricas. Diversos estudos apontam uma correlação significativa entre a prática compulsiva de jogos e o desenvolvimento de transtornos mentais, como ansiedade, depressão, dependência de substâncias e impulsividade. Este artigo realiza uma análise sobre a prevalência desses transtornos em jogadores problemáticos, destacando as implicações sociais, econômicas e psicológicas que resultam dessa condição. A pesquisa também enfatiza a necessidade de um marco regulatório rigoroso e de políticas públicas de prevenção e apoio psicológico para mitigar os danos causados pela ludopatia.
Palavras-chave: Ludopatia; Transtornos Mentais; Saúde Pública; Comorbidades; Suicídio.
1. INTRODUÇÃO AO PROBLEMA
A ludopatia é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um transtorno mental desde 1992 (CID-10, F63.0). Estudos recentes apontam que jogadores patológicos frequentemente apresentam comorbidades psiquiátricas que agravam o impacto social, econômico e psicológico das apostas. A prática compulsiva do jogo pode desencadear uma série de consequências negativas, incluindo o aumento das taxas de suicídio, o desenvolvimento de transtornos mentais e o comprometimento financeiro e social. Compreender a prevalência dessas condições é essencial para a formulação de políticas públicas voltadas à prevenção e ao tratamento do vício em jogos.
2. DADOS DE PREVALÊNCIA (%)
O quadro a seguir apresenta a prevalência média dos transtornos mentais mais comumente associados ao jogo patológico:
Transtorno | Prevalência Média (%) |
Dependência de Nicotina | 60,1 |
Transtorno por Uso de Substâncias | 57,5 |
Transtornos de Humor | 37,9 |
Transtorno de Ansiedade | 37,4 |
Transtorno de Personalidade Antissocial | 28,8 |
Transtorno por Uso de Álcool | 28,1 |
Depressão Maior | 23,1 |
Abuso de Drogas Ilícitas | 17,2 |
Episódios de Mania/Bipolaridade | 9,8 |
Prevalência média de transtornos mentais em jogadores patológicos (%)

Figura 1 – Prevalência média de transtornos mentais em jogadores patológicos (%)
3. DESTAQUES IMPORTANTES
- Uso de Substâncias: Mais da metade dos jogadores compulsivos (57,5%) apresentam transtornos relacionados ao uso de substâncias, o que evidencia uma conexão direta entre o vício em jogos e outros comportamentos compulsivos.
- Ansiedade e Depressão: A prevalência de ansiedade (37,4%) e depressão maior (23,1%) destaca o sofrimento psicológico associado ao jogo patológico.
- Transtorno de Personalidade Antissocial: Cerca de 28,8% dos jogadores patológicos apresentam comportamentos antissociais, o que pode indicar um risco aumentado de envolvimento em atividades ilegais e impulsivas.
- Risco de Suicídio: Estudos revelam que entre 50% e 80% dos jogadores compulsivos apresentam ideação suicida, e até 20% chegam a tentar ou consumar o ato.
4. IMPLICAÇÕES PRÁTICAS
Diante da alta prevalência de comorbidades mentais em jogadores patológicos, algumas medidas emergem como essenciais:
- Políticas de Saúde Pública: A criação de programas de saúde mental voltados para o diagnóstico e tratamento de jogadores compulsivos.
- Revisão da Legislação sobre Jogos de Azar: É imperativo revisar as leis que autorizaram e expandiram o acesso aos jogos de azar no Brasil. A revogação dessas leis se mostra necessária para frear o crescimento descontrolado de apostadores e mitigar os efeitos nocivos associados ao aumento exponencial das apostas.
- Restrição da Publicidade: Limitar o acesso e a divulgação de apostas, especialmente para grupos vulneráveis, como jovens e pessoas em situação de vulnerabilidade socioeconômica.
- Suporte Psicológico: Estabelecimento de serviços de apoio psicológico e programas de reabilitação voltados ao tratamento de dependência em jogos e substâncias.
5. CONCLUSÃO
A relação entre jogo patológico e transtornos mentais exige uma abordagem ampla e rigorosa. A prevalência de comorbidades psiquiátricas em jogadores problemáticos evidencia a urgência de medidas preventivas, legislativas e terapêuticas. Além disso, é fundamental que o Estado implemente um marco regulatório rigoroso e promova a revisão das leis que facilitaram o acesso aos jogos de azar, freando o aumento desenfreado do número de apostadores no país.
Rolf Hartmann
Presidente da Cruz Azul no Brasil[1]
[1] Cruz Azul no Brasil. Organização voltada à prevenção, recuperação e assistência no combate ao uso abusivo de substâncias psicoativas e promoção da saúde integral.
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