
Por Rolf Hartmann
Presidente da Cruz Azul no Brasil. Economista e contador, com atuação nas áreas de prevenção, fortalecimento das famílias e políticas públicas sobre álcool e outras drogas.
10 de agosto de 2026.
Quando pensamos nos riscos que crianças e adolescentes enfrentam na internet, é comum que nossa atenção se volte primeiro para desconhecidos, criminosos virtuais, conteúdos inadequados ou pessoas que escondem sua verdadeira identidade.
Esses riscos existem. Mas há outro, muito mais próximo da rotina de muitas famílias: o cyberbullying.
O capítulo “Coração à prova de bullying”, do livro A Criança Digital, chama a atenção justamente para essa realidade. Muitas vezes, a agressão não parte de um estranho, mas de alguém conhecido — um colega de escola, integrante do mesmo grupo de amigos ou alguém com quem a criança ou o adolescente convive.
A tecnologia não criou a crueldade, a rejeição ou a humilhação entre pessoas. Mas deu a essas práticas novos meios, maior alcance e uma característica particularmente preocupante: elas podem acompanhar a criança para dentro de casa.
Quando o bullying não termina no portão da escola
No bullying presencial, a criança que enfrentava provocações na escola podia encontrar em casa algum afastamento daquela situação. No ambiente digital, essa fronteira pode desaparecer.
As mensagens continuam chegando. Uma fotografia ou comentário pode ser compartilhado. Uma ofensa publicada diante de poucas pessoas pode rapidamente alcançar muitas outras. E aquilo que aconteceu durante o dia pode continuar sendo revivido à noite, diante da tela do celular.
Por isso, determinadas situações não podem ser reduzidas a “brincadeiras entre crianças”.
O cyberbullying pode assumir diferentes formas: mensagens ofensivas ou ameaçadoras, divulgação de rumores, exposição constrangedora de imagens, ridicularização pública, criação de conteúdos destinados a humilhar e exclusão deliberada de grupos e ambientes digitais.
A tecnologia amplia o alcance da agressão. Mas há outro aspecto ainda mais importante: nem sempre os adultos sabem que ela está acontecendo.
Os números que preocupam — especialmente um deles
O livro apresenta dados de uma pesquisa com estudantes que ajudam a compreender a dimensão do problema. Entre os participantes citados na obra:
- 42% disseram ter sofrido bullying enquanto estavam on-line;
- 35% relataram ter recebido ameaças pela internet;
- 21% receberam mensagens ofensivas;
- 53% admitiram ter enviado mensagens ofensivas a outras pessoas;
- 58% disseram nunca ter contado aos pais ou a outro adulto sobre as agressões sofridas.
Esses números devem ser compreendidos no contexto da pesquisa apresentada pelo livro, e não como estatísticas atuais sobre todas as crianças e adolescentes. Ainda assim, há neles uma constatação que permanece particularmente relevante para as famílias: o silêncio.
O percentual de 58% talvez seja o dado que mais deva nos inquietar.
Ele nos leva a uma pergunta diferente. Em vez de perguntarmos apenas quantas crianças sofrem bullying, precisamos perguntar:
Quantas podem estar sofrendo sem que os adultos responsáveis por elas saibam?
“Eu não entendo de tecnologia”
Essa é uma frase compreensível. As tecnologias mudam rapidamente. Aplicativos surgem e desaparecem, novas funcionalidades são lançadas e, frequentemente, crianças e adolescentes aprendem a utilizá-las com muito mais facilidade do que seus pais.
Mas A Criança Digital apresenta uma comparação provocativa: o fato de um adulto não conhecer determinado ambiente não seria motivo para deixar uma criança explorá-lo sozinha e sem orientação.
O mesmo princípio vale para o mundo digital.
Isso não significa que os pais precisem dominar cada aplicativo melhor que seus filhos. Tampouco significa vigiar secretamente cada conversa. Significa conhecer suficientemente o ambiente para acompanhar, orientar, estabelecer limites e, principalmente, conversar.
A tecnologia pode ser nova. A responsabilidade de educar não é.
Informação e privacidade também protegem
Um dos pontos mais interessantes apresentados no capítulo está na comparação entre adolescentes que se tornaram vítimas de predadores no ambiente digital e aqueles que não se tornaram.
Segundo as entrevistas relatadas na obra, entre os adolescentes que não se tornaram vítimas, algumas características apareciam com maior frequência: tinham maior conhecimento sobre segurança na internet, valorizavam mais sua privacidade e demonstravam maior cautela no compartilhamento de informações pessoais.
Entre as vítimas entrevistadas, por outro lado, apareciam com maior frequência adolescentes que buscavam romance, conexão emocional ou informações relacionadas à sexualidade e que demonstravam maior confiança em pessoas conhecidas apenas pela internet.
Essa comparação exige cuidado.
Ela não permite concluir que determinada característica faça alguém se tornar vítima e, muito menos, atribuir à vítima responsabilidade pela ação de quem a abordou de maneira inadequada.
A lição preventiva é outra: conhecimento, discernimento e cuidado com a privacidade podem diminuir vulnerabilidades.
E isso pode ser ensinado.
O alerta sobre os predadores virtuais
O capítulo também apresenta informações atribuídas ao FBI sobre a forma de atuação de predadores no ambiente digital.
Talvez o aspecto mais importante para as famílias seja compreender que uma abordagem perigosa nem sempre parece perigosa no início.
Ela pode começar com uma conversa aparentemente inofensiva. Atenção. Interesses em comum. Elogios. A sensação de encontrar alguém que compreende o adolescente. Aos poucos, pode surgir uma relação de confiança.
Isso torna insuficiente a antiga orientação de simplesmente “não falar com estranhos”.
Depois de muitas conversas, aquela pessoa pode deixar de ser percebida pelo adolescente como estranha — embora ele continue sem saber verdadeiramente quem está do outro lado.
Por isso, a prevenção precisa ir além da proibição. Precisamos ajudar crianças e adolescentes a desenvolver discernimento para os relacionamentos digitais.
A pergunta mais importante talvez seja outra
Diante desses riscos, é natural que os pais se perguntem:
“Meu filho está passando por alguma dessas situações?”
Mas talvez exista uma pergunta ainda mais importante:
Se estivesse, ele se sentiria seguro para me contar?
Uma criança ou adolescente pode esconder o que está acontecendo por vergonha, medo, receio de ser culpado, temor de perder o acesso ao celular ou simplesmente porque acredita que os adultos não compreenderão seu mundo.
Imagine, por exemplo, um adolescente que finalmente decide contar que está sendo humilhado em um grupo. Se a primeira reação for tomar-lhe o celular, ele poderá interpretar a medida não como proteção, mas como uma punição por ter contado.
Isso não significa abrir mão de limites. Significa compreender que, antes de agir, precisamos ouvir.
A confiança necessária para uma conversa difícil não nasce no momento da crise. Ela é construída nas pequenas conversas do cotidiano.
Alguns sinais merecem nossa atenção
O cyberbullying nem sempre deixa marcas facilmente perceptíveis. Além disso, mudanças de comportamento podem ter inúmeras causas e nenhum sinal isolado comprova que uma criança esteja sendo vítima.
Ainda assim, é importante observar alterações significativas: desconforto intenso depois de usar o celular, afastamento repentino de amigos, resistência incomum em ir à escola, abandono de atividades antes apreciadas, preocupação excessiva com mensagens e notificações ou mudanças marcantes no comportamento relacionado às redes sociais.
Mais importante do que transformar esses sinais em uma lista de diagnóstico é utilizá-los como convite ao diálogo.
Perceber algo diferente deveria aproximar os adultos da criança, não transformá-los imediatamente em investigadores.
E se nosso filho estiver do outro lado?
Há ainda uma pergunta mais desconfortável, mas necessária.
E se nosso filho não for a vítima?
E se tiver sido ele quem escreveu a mensagem, compartilhou a imagem, espalhou o comentário, excluiu alguém deliberadamente ou participou da humilhação?
Os dados apresentados pelo próprio livro mostram que uma parcela expressiva dos estudantes reconhecia ter enviado mensagens ofensivas. Portanto, educar para a prevenção do bullying significa ensinar nossos filhos não apenas a não serem vítimas, mas também a não se tornarem agressores ou espectadores que alimentam a agressão.
No ambiente digital, compartilhar, curtir, encaminhar ou rir também pode ampliar a violência.
Quando um filho erra, é preciso responsabilizá-lo. Mas responsabilizar não significa rejeitar. O episódio pode se transformar em oportunidade para desenvolver empatia, compreender consequências, reparar danos quando possível e aprender novas formas de relacionamento.
Esse também é um coração que precisa ser formado.
O que podemos fazer em casa?
Nenhum aplicativo, filtro ou ferramenta de controle parental substitui o relacionamento. A tecnologia pode ajudar, mas a prevenção depende também de atitudes muito simples e permanentes.
Converse sobre a vida digital com a mesma naturalidade com que pergunta sobre a escola. Procure conhecer os aplicativos e ambientes utilizados pelos filhos. Fale sobre privacidade e sobre os riscos de compartilhar informações pessoais. Ensine que não é necessário responder a uma provocação e que bloquear alguém agressivo pode ser uma atitude de proteção.
E, sobretudo, deixe claro que pedir ajuda não resultará automaticamente em culpa, bronca ou perda de confiança.
Uma criança precisa saber que pode trazer um problema para dentro de casa antes que ele se torne grande demais para enfrentar sozinha.
Informação, identificação e interação
Na prevenção, podemos pensar em três movimentos complementares: informação, identificação e interação.
Informação
Precisamos conhecer os riscos e ajudar crianças e adolescentes a compreendê-los.
Informação permite reconhecer uma situação inadequada antes que ela se agrave. Ensinar privacidade, segurança digital, respeito, responsabilidade e limites não significa criar medo da tecnologia. Significa preparar para utilizá-la com discernimento.
Identificação
Conhecimento precisa encontrar a realidade.
Precisamos reconhecer situações de risco, mudanças de comportamento e vulnerabilidades. Isso vale tanto para perceber uma possível vítima quanto para identificar atitudes agressivas praticadas pelos próprios filhos.
Identificar também significa ajudar a criança a reconhecer aquilo que está acontecendo com ela e dar nome ao problema.
Interação
É quando a prevenção ganha vida.
Pais conversam com filhos. Filhos procuram os pais. Famílias dialogam com escolas. Educadores escutam estudantes. Adultos responsáveis deixam de atuar isoladamente.
Informação sem interação pode permanecer apenas como conhecimento. Quando conversamos sobre aquilo que identificamos, criamos a possibilidade de agir.
E é desse encontro entre informação, identificação e interação que pode nascer a transformação: mudanças de comportamento, fortalecimento de vínculos, procura por ajuda, correção de atitudes e desenvolvimento de fatores de proteção.
Uma conversa que pode começar hoje
Talvez não seja necessário esperar que algo aconteça para conversar sobre bullying.
Em um momento tranquilo, algumas perguntas podem abrir portas:
- Você já viu alguém ser humilhado em um grupo ou rede social?
- O que você fez?
- Como acha que aquela pessoa se sentiu?
- O que faria se acontecesse com um amigo?
- E se acontecesse com você?
- Há alguma situação na internet que você teria medo ou vergonha de me contar?
Não é necessário transformar a conversa em interrogatório. O objetivo é comunicar algo muito mais importante:
“Eu quero conhecer o mundo em que você vive e você pode contar comigo.”
Afinal, existe um “coração à prova de bullying”?
O título do capítulo é muito expressivo, mas talvez também nos convide a uma reflexão.
Nenhum coração precisa tornar-se insensível para estar protegido.
Palavras podem machucar. Rejeição pode machucar. Humilhação pode machucar.
Fortalecer uma criança não significa ensiná-la a não sentir. Significa ajudá-la a desenvolver recursos para enfrentar aquilo que sente.
Uma criança que conhece seu valor, possui vínculos seguros, desenvolve discernimento, sabe pedir ajuda e encontra adultos dispostos a escutá-la está mais preparada para enfrentar situações difíceis.
Esse fortalecimento começa muito antes do primeiro problema na internet.
Começa no pertencimento.
Na presença.
Nos limites.
No exemplo.
Na confiança.
No diálogo.
Para levar para casa
A tecnologia continuará mudando. Nossos filhos provavelmente utilizarão ferramentas que hoje nem sequer existem. Não conseguiremos conhecer antecipadamente cada plataforma ou eliminar todos os riscos.
Mas podemos construir fatores de proteção que permanecerão importantes independentemente da tecnologia.
Informação para compreender.
Identificação para perceber.
Interação para não enfrentar sozinho.
E, a partir delas, transformação.
Não basta ensinar nossos filhos a usar a internet.
Precisamos prepará-los para viver nela com sabedoria, responsabilidade e segurança.
Talvez o primeiro passo possa ser dado ainda hoje, com uma pergunta muito simples:
“Como está sua vida na internet? Quero conhecer esse mundo com você.”
Livro que inspirou esta reflexão: A Criança Digital, capítulo “Coração à prova de bullying”.
Nota: Os percentuais mencionados no texto correspondem à pesquisa reproduzida na obra consultada e devem ser compreendidos no contexto e período daquela pesquisa.
Rolf Hartmann
Presidente da Cruz Azul no Brasil. Economista e contador, com atuação nas áreas de prevenção, fortalecimento das famílias e políticas públicas sobre álcool e outras drogas.



