
Revisão compara 75 fatores associados a diferentes transtornos e mostra também onde a ciência ainda tem poucas respostas
Rolf Hartmann | Presidente da Cruz Azul no Brasil | 8 de outubro de 2026
Uma pessoa decide beber pouco, mas volta a consumir mais do que pretendia, mesmo depois de conflitos em casa. Outra promete parar de apostar após acumular dívidas, mas faz uma nova aposta. Uma terceira tenta reduzir as horas de jogos eletrônicos porque está faltando a compromissos e não consegue. São exemplos hipotéticos, que por si só não permitem diagnosticar ninguém. Eles ajudam a entender a pergunta da pesquisa: será que problemas tão diferentes têm características em comum?
Para investigar, os autores partiram do transtorno do jogo, nome técnico do problema relacionado às apostas. Examinaram pesquisas sobre ele e fizeram uma lista de 75 fatores associados. Um fator pode ser, por exemplo, a impulsividade, a dificuldade de regular emoções ou a presença de outro problema de saúde mental. Em seguida, procuraram estudos sobre esses mesmos fatores no transtorno por uso de álcool e em outras condições. A cada passo, perguntaram: existe pesquisa sobre isso? Quando existe, o resultado aponta na mesma direção observada nas apostas?
A comparação incluiu jogos eletrônicos, compulsão alimentar periódica, comportamento sexual compulsivo, compras compulsivas e envolvimento excessivo com exercícios físicos e com trabalho. A revisão, publicada na European Psychiatry em 12 de agosto de 2026, reuniu 246 publicações sobre os comportamentos e 49 estudos sobre o álcool. Ela analisou resultados já publicados; não acompanhou diretamente pessoas em tratamento nem testou uma terapia.
Quais características foram examinadas
Para organizar os 75 fatores, os autores criaram nove áreas. Quatro dizem respeito ao contexto e à saúde: condições de vida, outros transtornos mentais, outras dependências e condições físicas. Três tratam da maneira de pensar e reagir: personalidade, características cognitivas e emoções. As duas restantes reúnem genética e avaliações cerebrais. Os fatores são características pesquisadas em grupos de pessoas; não formam uma lista de sintomas que todos apresentariam.
O artigo dá exemplos mais concretos do que essas aproximações podem envolver. Na discussão, reúne pesquisas que apontam, para jogos eletrônicos e compulsão alimentar, alterações em processos de recompensa, dificuldades de controle dos impulsos e reação a sinais ligados ao comportamento. Para o comportamento sexual compulsivo, cita desejo intenso de repetir a atividade e perda de controle. Também menciona viés de atenção e formas de impulsividade observados em pelo menos duas das quatro condições examinadas nesse ponto: apostas, jogos eletrônicos, compulsão alimentar e comportamento sexual. Esses exemplos não significam que cada característica esteja demonstrada em todos os transtornos ou em todas as pessoas.
A própria análise registra diferenças. Em relação ao transtorno do jogo, alguns resultados seguiram a direção oposta: o perfil por sexo na compulsão alimentar e nas compras, a relação com autoestima nos exercícios, com extroversão no trabalho e um fator de avaliação cerebral na compulsão alimentar. A matriz dos 75 fatores e os estudos correspondentes estão nas Tabelas Suplementares S3 e S4 da publicação.
O que os números realmente dizem
A primeira pergunta dos pesquisadores foi: há estudos sobre esse fator em cada condição? A segunda: quando há dados, a associação observada segue a mesma direção vista no transtorno do jogo? Essas são medidas distintas. O gráfico abaixo as apresenta lado a lado, conforme a Tabela 1 do estudo.

Gráfico elaborado a partir da Tabela 1 de Vansteene et al. (2026). A concordância é a média de resultados por categoria entre fatores comparáveis; não é a proporção de pessoas com dois transtornos. Para álcool, a tabela informa 100% de disponibilidade, enquanto o texto ressalva três fatores cerebrais sem dados.
O álcool teve 92,2% de concordância com o transtorno do jogo na medida não ponderada apresentada pelos autores. Os jogos eletrônicos chegaram a 98,9% entre os fatores comparáveis, mas havia pesquisas para 69,3% dos 75 fatores. Na compulsão alimentar, os valores foram 84,9% e 54,7%; no comportamento sexual compulsivo, 89,7% e 48%. Para compras, trabalho e exercícios, havia dados para menos de 23% dos fatores, o que reduz muito a segurança de qualquer conclusão geral.
Um número como 98,9% não quer dizer que quase todas as pessoas que jogam videogame terão um transtorno, nem que 98,9% das pessoas com um quadro terão o outro. Ele expressa a semelhança da direção dos resultados disponíveis, depois de uma média entre os nove campos de fatores. Também não mede qual transtorno é “mais grave”. A comparação ponderada pela força da evidência muda alguns valores e reforça a necessidade de considerar a qualidade e a quantidade das pesquisas.
O que se pode concluir para o cuidado
O transtorno por uso de álcool e os transtornos relacionados a apostas e jogos eletrônicos apresentam um conjunto relevante de fatores associados semelhantes. Para compulsão alimentar e comportamento sexual compulsivo, os autores consideram as evidências promissoras, porém insuficientes para uma decisão definitiva sobre sua classificação como dependências comportamentais. Para compras, exercícios e trabalho, a literatura examinada ainda é escassa.
Há limites importantes. Os fatores foram escolhidos a partir das pesquisas sobre apostas e podem deixar de fora aspectos próprios das demais condições. Faltam dados suficientes sobre prejuízo no dia a dia, necessidade de cuidado e resposta ao tratamento. A revisão também não avaliou especificamente as bets no Brasil. Portanto, não autoriza atribuir um diagnóstico a alguém apenas porque trabalha muito, pratica exercício, compra ou joga com frequência.
Na prática, o estudo sugere uma pergunta útil para os serviços de cuidado: além da queixa que levou a pessoa a procurar ajuda, existem outros comportamentos que ela sente dificuldade de controlar e que vêm causando prejuízos? Ouvir essa história de forma ampla pode orientar uma avaliação mais completa e os encaminhamentos adequados. Essa é uma aplicação prudente dos achados; não foi um protocolo de atendimento testado pelos pesquisadores.
Na Cruz Azul no Brasil, acolher a pessoa significa reconhecer seus vínculos, dificuldades e possibilidades de mudança. Quando álcool, apostas ou jogos eletrônicos passam a comprometer relações, saúde, trabalho ou finanças, a pessoa e sua família podem buscar orientação e avaliação profissional. Os fatores em comum ajudam a fazer perguntas melhores; cada história continua exigindo atenção própria.
Referência
VANSTEENE, Clément et al. Concordance between gambling disorder, alcohol use disorder, and other behavioural addictions provides evidence for a comprehensive approach to addictive behaviours: a multiple systematic review analysis. European Psychiatry, v. 69, n. 1, e94, 2026. DOI: 10.1192/j.eurpsy.2026.12249. Disponível em: https://doi.org/10.1192/j.eurpsy.2026.12249. Acesso em: 8 out. 2026.



