
O resultado não significa ausência de tratamento: intervenções psicossociais e cuidado integrado continuam necessários.
Rolf Hartmann
Presidente da Cruz Azul no Brasil
03 de outubro de 2026
Uma revisão científica publicada em julho de 2026 na revista Addiction examinou uma pergunta que interessa a pessoas em tratamento, familiares e profissionais: existe algum medicamento capaz de tratar, de maneira comprovada, o transtorno por uso de cocaína?
Os pesquisadores analisaram 163 ensaios clínicos, reunidos em 218 publicações, com 14.871 participantes. Ao todo, foram estudados 89 medicamentos, agrupados em oito categorias. A conclusão foi clara, mas exige precisão: não foi encontrada evidência convincente de que algum tratamento farmacológico produza benefícios consistentes nos diferentes resultados avaliados, como abstinência e redução do uso. Isso não significa que todos os medicamentos sejam inúteis para todas as pessoas; significa que os estudos disponíveis ainda não permitem apresentar um deles como solução comprovada para o transtorno (PATERSON et al., 2026).
A revisão também expõe uma dificuldade da própria pesquisa. Muitos ensaios tinham risco de viés, resultados imprecisos ou formas diferentes de medir o sucesso do tratamento. Além disso, 89 medicamentos distribuídos por 163 estudos representam pouca repetição de testes para várias alternativas. Alguns grupos de fármacos mostraram sinais positivos em determinados indicadores, mas esses sinais não se repetiram de forma coerente em outros. A certeza das conclusões sobre eficácia foi, em geral, muito baixa (PATERSON et al., 2026).
Há outra ressalva especialmente importante para o Brasil: os estudos nem sempre informaram adequadamente se os participantes usavam cocaína em pó ou crack. Por isso, a revisão não permite afirmar que uma eventual resposta a determinado medicamento seria igual nas duas situações. Também havia poucos estudos voltados especificamente à prevenção de recaídas após um período inicial de abstinência (PATERSON et al., 2026).
O cuidado não pode esperar por uma descoberta farmacológica
A ausência de um medicamento comprovado não é motivo para negar tratamento nem para transmitir desesperança. A Organização Mundial da Saúde recomenda oferecer intervenções psicossociais, especialmente terapia cognitivo-comportamental e manejo de contingências, a pessoas com dependência de cocaína e outros estimulantes. No manejo de contingências, metas de cuidado previamente definidas recebem reforços positivos. A própria OMS classifica como baixa a certeza da evidência que embasa sua recomendação — informação importante para que nenhuma abordagem seja apresentada como garantia de recuperação (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2023).
Também é necessário avaliar cada pessoa em sua realidade: saúde física e mental, outras substâncias utilizadas, vínculos familiares, moradia, trabalho e riscos imediatos. Medicamentos podem ser necessários para tratar condições associadas ou complicações clínicas, mesmo que não exista um fármaco comprovado para resolver especificamente o transtorno por uso de cocaína. No SUS, os Centros de Atenção Psicossocial oferecem acolhimento, acompanhamento individualizado, atividades em grupo, apoio social e articulação com outros serviços de saúde (BRASIL, [s. d.]).
Para a Cruz Azul no Brasil, o estudo reforça a importância de um cuidado responsável, contínuo e integrado. Prevenção, acolhimento, apoio às famílias e acompanhamento da trajetória de recuperação não devem depender da expectativa de um “remédio único”. Ao mesmo tempo, é essencial respeitar o alcance da pesquisa: essa revisão avaliou medicamentos; não comparou comunidades terapêuticas, grupos de apoio ou outras modalidades de cuidado.
A principal mensagem é dupla. Precisamos de pesquisas farmacológicas melhores, com resultados comparáveis e atenção às diferenças entre cocaína em pó e crack. E precisamos assegurar, desde já, que quem procura ajuda encontre escuta, avaliação qualificada e acesso a um plano de cuidado adequado às suas necessidades. A ciência ainda não identificou uma resposta medicamentosa convincente; isso torna o compromisso com as pessoas — e com a qualidade do cuidado oferecido — ainda mais necessário.
Referências
BRASIL. Ministério da Saúde. Centros de Atenção Psicossocial. [S. l.], [s. d.]. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saes/desmad/raps/caps/caps. Acesso em: 3 out. 2026.
PATERSON, Craig et al. Efficacy and safety of pharmacological interventions for the treatment of cocaine use disorder: a systematic review and network meta-analysis. Addiction, [S. l.], publicação antecipada, 22 jul. 2026. DOI: 10.1111/add.70486. Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/add.70486. Acesso em: 3 out. 2026.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. Psychosocial support for the management of psychostimulant use disorders. [S. l.], 2023. Disponível em: https://www.who.int/teams/mental-health-and-substance-use/treatment-care/mental-health-gap-action-programme/evidence-centre/drug-use-disorders/psychosocial-support-for-the-management-of-psychostimulant-use-disorders. Acesso em: 3 out. 2026.



